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A Incontinência Urinária

Segundo um estudo, 46% das portuguesas desconhecem se podem ou não vir a ser atingidas por incontinência urinária durante ou depois da gravidez. Por seu turno, a mesma pesquisa mostra que 44,7% das inquiridas têm receio de ser afectadas. Conheça mais sobre esta realidade no caso específico da gestação.

Viver com Incontinência Urinária (IU) causa embaraço, perturbando seriamente a qualidade de vida. Isso pode acontecer nos mais diversos aspectos do quotidiano da mulher, incluindo uma inversão no bem-estar psicológico geral, com responsabilidades em quadros depressivos.

«A IU tem consequências nos planos físico, social, pessoal, conjugal e emocional. Pode provocar, inclusivamente, alterações do sono e da energia da própria mulher. Conseguimos demonstrar esta realidade através de questionários standardizados, os quais nos forneceram dados sobre o índice de sintomatologia depressiva. Este apresentava uma diferença de 16 pontos percentuais entre o valor apresentado pelas mulheres que sofrem de IU e as que não sofrem. É um valor significativo», anota a Prof.ª Teresa Mascarenhas, docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Secção de Uroginecologia da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

De acordo com um estudo efectuado em mulheres que eram continentes antes da gravidez e que foram seguidas, o tratamento para a IU foi procurado por 84% delas. Nessa perspectiva, «é preciso fazer algo em relação a elas», defende Teresa Mascarenhas.

Um tabu que persiste

Ainda existe um tabu a ultrapassar que é o da vergonha em assumir a incontinência. «Muitas vezes, a situa­ção só é reportada ao médico quando há a nítida sensação de que a IU não vai desaparecer e,
dessa forma, a mulher busca ajuda», revela a médica. As mulheres entre as seis e as oito semanas depois do nascimento do filho devem fazer uma consulta de revisão. «O seu médico obstetra deve ter presente a preocupação em verificar os músculos do pavimento pélvico, se existe ou não diminuição da força nessa estrutura. Perguntar se a mulher tem ou não incontinência urinária», sustenta a especialista.

Para evitar danos no pós-parto, Teresa Mascarenhas avisa para a necessidade de reeducação muscular do períneo, cuja função é conhecida apenas por uma baixa percentagem de mulheres (cerca de 30%). De acordo com os estudos internacionais publicados, com esses exercícios regulares, perto de 70% das pessoas consegue retomar o controlo da bexiga.

«Sabemos, no entanto, que o principal factor de risco na IU relacionada com a gravidez é mesmo o parto vaginal. É susceptível de criar situações traumáticas a nível dos músculos do pavimento pélvico que podem induzir a esta perturbação. O parto pode provocar uma situa­ção de descida (prolapso) das paredes vaginais, atingindo estruturas da bexiga e da uretra», refere Teresa Mascarenhas.

Parto vaginal é o mais adequado, mas é mais traumático

O parto vaginal pode ser traumático para o pavimento pélvico, com o relaxar das estruturas musculares, mas depois a tendência normal é o organismo recuperar. «Uma mulher que tem um parto vaginal não será necessariamente afectada por um traumatismo obstétrico do pavimento pélvico. Mas não podemos deixar de admitir que o parto vaginal é o principal factor de risco de IU, o que está comprovado por estudos científicos, quer nacionais, quer internacionais», afirma a especialista.

A incontinência urinária na mulher é atribuída aos efeitos da gravidez e do parto. Embora a causa precisa da IU na gravidez seja desconhecida, geralmente consideram-se como prováveis as alterações hormonais e/ou mecânicas relacionadas com a pressão no útero, durante a gestação.

Os níveis aumentados das hormonas durante a gravidez induzem alterações nos tecidos que podem influenciar o mecanismo da continência e serem, assim, responsáveis por um problema que se manifesta em doses preocupantes, quer durante a gravidez, quer no período pós-parto.

Os valores estatísticos que sobressaem de um estudo realizado pela TENA, com o apoio da Spirituc, revelam dados que ajudam a perceber esta realidade da IU no caso específico da gravidez. Desde logo, cerca de 46% das mulheres portuguesas não sabem se podem ou não vir a ser atingidas por IU durante ou depois da gravidez, mas, curiosamente, os receios em ter aquele problema de saúde afectam sensivelmente o mesmo número de inquiridas (44,7%).

IU é transitória na maioria dos casos

«Partindo de uma população que era continente antes da gravidez e que estava à espera do primeiro filho, 52% dessas mulheres encontravam-se incontinentes no terceiro trimestre de gestação. Claro que a maior parte dos casos de IU que surgem durante a gravidez desaparecem no pós-parto, porque as alterações hormonais produzidas durante a gravidez e a pressão sobre o útero vão desaparecer».

Constata-se igualmente que larga fatia dos 52% de casos de IU são transitórios. Mas mesmo seis meses depois do parto, intervalo de tempo que Teresa Mascarenhas considera ser «um prazo plausível de espera para a recuperação do pavimento pélvico», naquele grupo, persistia a IU em 20% das mulheres. É um número que anuncia «uma alta prevalência em mulheres jovens, que até tiveram o primeiro filho», de acordo com a especialista.

Quando a IU já se encontra instalada, aí é necessário ponderar a utilização de fármacos ou mesmo de cirurgia. «Actualmente as técnicas são minimamente invasivas, de um modo geral, com possibilidade de anestesia local, sem cicatrizes. Há uma boa adesão a este tipo de tratamento, até porque a recuperação é rápida e a taxa de sucesso é de 80% ou 90%», explica a médica.

As mulheres portuguesas não têm grande informação sobre a IU na gravidez e pós-parto. «Segundo a Spirituc, 64,9% nunca tiveram informação sobre a doença. Mesmo quando têm alguma informação, é pouco profunda, sobre o que a gravidez e o parto podem prejudicar o seu pavimento pélvico e como prevenir essas situações. É preciso continuar a fazer investigação, para sabermos ao certo quais são as mulheres que têm maior risco de IU, porque isso pode influenciar a nossa conduta obstétrica», defende Teresa Mascarenhas.

Testemunho Real

«Não se apregoa "aos sete ventos" que somos incontinentes

Raquel, aqui um nome fictício, porque prefere não ser identificada, revelou-nos a situação real que viveu na primeira pessoa após ter sido mãe pela primeira vez. Durante quatro meses, após o parto normal, sem necessidade de epidural, sofreu de incontinência urinária.

Confessa que «estava preparada» para tudo aquilo, porque o médico obstetra deu-lhe alguns conselhos básicos para lidar com um possível problema. Entre eles o exercitar o períneo. O que pode ser feito em qualquer lado, de acordo com Raquel, e com pouca ou nenhuma visibilidade.

«No que me diz respeito, mesmo sentada contraía o períneo repetidas vezes, de modo a reforçá-lo. O médico explicou-me que com partos normais, o músculo sofre alterações, fica relaxado, podendo levar à incontinência urinária. Não tinha perdas de urina diárias, mas era difícil aguentar-me até ir à casa de banho. Quando a bexiga estava cheia, não conseguia suster até chegar a uma casa de banho».

Houve dois ou três episódios mais embaraçosos. Num deles, sentada no carro sentiu que tinha controlo sobre a bexiga. Mas assim que saiu, foi inevitável a fuga de urina, mesmo à porta de casa.

Por isso, Raquel arranjou estratégias para não ser surpreendida. Como habitualmente ia poucas vezes à casa de banho, passou a ir com mais frequência. «Não podia esperar que a bexiga enchesse até não aguentar mais».

Tudo isto fez com que esta mulher, então com 28 anos, se sentisse retraída e com medo. «Tinha de arranjar forma de não acontecer uma perda de urina no meio laboral, no meio dos amigos e nos restaurantes. Podemos dizer que temos acne, mas não se apregoa aos "sete ventos" que sofremos de incontinência urinária», diz Raquel.

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Informação editada em Out. 08.

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